quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sustentando (ou não) os desejos

Adoro a imprevisibilidade dos sentimentos. Acho incrível como somos invadidos e atravessados pelas emoções que não pedem licença. Nos apaixonamos, alegramos, enraivecemos, entristecemos, odiamos e por aí vai.. Ah... vida sem graça se assim não fosse!


Já vi de tudo:
- amigos há anos, se descobrindo apaixonados;
- casamento desfeito após dois meses, sendo que o namoro durou dez anos;
- homens que sonhavam com sua continuidade através de filhos biológicos e casaram com mulheres inférteis, recorrendo à adoção;
- mulheres que nem podiam ouvir a palavra “casamento”, lavando meias e arrumando casa alegres da vida;
- homens que levantavam a bandeira do celibato e das relações fugazes, chorando igual criança por terem se apaixonado e não serem correspondidos;
e por aí vai...

Infelizmente esses casos ainda são minoria. Parece-me que a regra é fugir. Explico: muitas pessoas me perguntam por que é tão difícil encontrar alguém pra viver uma relação saudável. Bom, como diz o Contardo Calligaris, não podemos esquecer que precisamos de sorte – também. Além de sorte, precisamos desejar e assumir nosso desejo.

Jorge Forbes, em seu livro “Você quer o que deseja?”, nos diz  que “o desejo humano é antagônico às soluções do ‘todo mundo tem de’, às soluções totalitárias.” O desejo vai na contramão do pré-estabelecido, do pré-fixado, do pré-conceito. Mas como é difícil sustentarmos nossos desejos... Muitas vezes preferimos nos acovardar em nossas racionalizações, usadas como escudos para não nos deixarmos arrebatar e assumir nossos desejos. Por quê? Ora... porque é mais confortável, dá menos trabalho e, sobretudo, porque é menos arriscado.

Rubem Alves diz que somos donos dos nossos atos, mas não somos donos dos nossos sentimentos. Concordo. Não podemos prometer sentimentos a ninguém, mas podemos fazer de tudo para evitar que eles aconteçam. Nesse sentido, a internet pode ser aliada dos temerosos, pois fica muito mais fácil dispensar alguém que não conhecemos pessoalmente, evitando um possível arrebatamento pelo toque, pelo cheiro e pelo olhar. 

Um exemplo:
Ele: Acho melhor sermos só amigos, você não que casar nem ter filhos. Eu quero casar, ter filhos e agora não quero compromisso.
Ela: Concordo. Acho que você não tem assiduidade com seus compromissos e isso me incomoda.

Detalhe: os dois nunca saíram juntos, nem que seja pra um cineminha ou um café, tudo aconteceu pela internet! E acaba assim algo que nem sequer começou. Bom, não sei o que poderia ter acontecido se eles tivessem se encontrado. Ela poderia, com o tempo (ou imediatamente), se apaixonar por ele e aprender a relevar sua possível dificuldade com horários. Ou não. Mas ela também poderia decidir que com um homem desses ela até toparia casar. Ou não.

Quanto ao moço, ele poderia ter se encantado com o jeito dela e até se apaixonar. Ou não. Ele poderia também descobrir que morar em casas separadas pode ser mais interessante. Ou não. Ele também poderia  continuar querendo uma relação estável só no futuro e encontrar alguém lá na frente que satisfaça as suas expectativas. Ou não.

Agora cada um está em seu canto, esperando que apareça alguém que se enquadre perfeitamente em suas necessidades pré-estabelecidas, no momento que eles considerarem mais adequado, como se o futuro pudesse ser previsto e determinado. Mas isso também não importa muito, pois relacionamento é algo secundário em suas tão atribuladas vidas profissionais...

Sendo assim, deixo a recomendação: a melhor maneira de ficar sozinho é não sustentar seu próprio desejo, é negá-lo exatamente pelo que ele tem de mais ameaçador e fascinante; é se acovardar diante da possibilidade de mudança de paradigmas - fugir da imprevisibilidade dos sentimentos.

                       



sábado, 26 de março de 2011

Sacanagem não pode ser coisa normal

"Pois não posso / não devo / não quero / viver como toda essa gente / insiste em viver / e não posso aceitar sossegado / qualquer sacanagem ser coisa normal" M. Nascimento.

            Já foi mais do que dito que estamos em uma cultura especular, individualista, onde o outro, na maioria das vezes, serve-nos apenas como objeto de utilidade, satisfação ou para refletir nossa própria imagem. No entanto, por mais que isto seja dito e estudado, permanecem minha indignação e preocupação.

            Não vejo diferença entre o governador do Amazonas que disse estar apenas “constrangido” com a atitude do policial que baleou um adolescente à queima-roupa e pessoas que não se importam mais com os “muito obrigado”, “por favor” e “bom dia”. A diferença entre o normal e o patológico é quantitativa, não qualitativa.

             Pior que falta de cordialidade e respeito, é as pessoas não perceberem o quanto isso é grave! Então todos vão se atropelando, se desconsiderando, gritando, agredindo, como se fossem atos banais e inconsequentes - não são.

            Segundo Freud, não somos gregários por natureza, mas por necessidade: “(...) os impulsos emocionais e os atos intelectuais de um indivíduo são fracos demais para chegar a algo por si próprios; para isso dependem inteiramente de serem reforçados por sua igual repetição nos outros membros do grupo”.  Eis o problema: quais serão as emoções  e os atos que serão reforçados e se repetirão na cultura do “cada um por si e foda-se o resto”, como diz o psicanalista Joel Birman?

            O filho da faxineira do prédio morreu? Ah... tomara que eu não encontre com ela quando estiver atrasado pro trabalho. Meu amigo terminou uma relação? Ah... depois eu ligo pra ele, agora vou acabar de assistir um filme – ele não vai morrer por causa disso. Tem alguém me esperando e eu não poderei ir? Ah... depois me desculpo e marco pra outro dia que seja mais conveniente para mim. Mas quando for algum querido meu que morrer, quando eu estiver triste pelo rompimento de uma relação ou quando eu quiser muito encontrar alguém, espero que estejam todos à minha disposição.

            Se estamos na cultura do espetáculo, onde pretendemos encenar nossa melhor performance para um outro que serve apenas para nos aplaudir, estamos correndo o risco de nos transformarmos em tristes figuras disputando um palco onde as luzes já estão apagando. Vejo a cortina fechando, um sorriso pintado no rosto  e a plateia pedindo o dinheiro de volta.


           
            

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reflexões sobre Cisne Negro

Saí extasiada do cinema após assistir Cisne Negro - lamentável não ter recebido a estatueta como melhor filme.

Como são tantas as vertentes presentes nesta obra magistral, inúmeras as possíveis interpretações e cada uma com incontáveis desdobramentos, apenas colocarei aqui alguns tópicos propondo reflexões:

- Muitos pais culpam os filhos por seus fracassos: é mais confortável do que enfrentar a própria covardia e/ou incompetência para assumir seus desejos.

- Quer saber do que alguém é capaz? Basta lhe dar poder ou acuá-lo: uma situação estressante não cria um conflito – o desencadeia.

- Viver requer uma poderosa quota de agressividade, no sentido de investimento de energia em busca da satisfação dos nossos desejos.

- A forma como exercemos nossa sexualidade traduz grande parte da nossa saúde mental.

- Somos constituídos por pares de opostos: amor-ódio, atividade/passividade, entre outros. Não há como destruir partes de nós.

- O caminho entre menina e mulher é longo, árido e nem sempre completamente percorrido.

- Somos inúmeros dentro de nós.

- “Caso se exija demais de um homem, produzir-se-á nele uma revolta ou uma neurose, ou ele se tornará infeliz” (S. Freud in: "O mal-estar na civilização”).

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Redes sociais

Observo com grande interesse o preconceito existente em relação às redes sociais, em especial àquelas direcionadas a encontros amorosos.

Um dos argumentos usados para justificar o preconceito é dizer que quem as procura só deseja relações sexuais, nada de comprometimento. Ora, as pessoas que estão nas redes são as mesmas dentro e fora delas, com os mesmos desejos. Nesse sentido, penso que a rede social é até melhor, pois logo de início a pessoa deixa claro o que quer. Além disso, quem disse que as intenções não podem mudar, bem como a coragem para bancar os próprios desejos? Outra nuance: principalmente entre os homens, parece ser mérito dizer que procura parceiras apenas para sexo ocasional e vergonhoso admitir que deseja uma relação estável.

Sobre o perigo de sair com alguém que não conhece, ora... é o mesmo perigo que enfrentamos se um estranho nos abordar em um local público e nós irmos com ele para um lugar ermo. O problema é que, depois de algumas conversas virtuais, as pessoas acreditam que o outro não é mais tão estranho assim e esquece-se de tomar alguns cuidados básicos necessários com qualquer desconhecido que de nós se aproxime.
Nesse sentido, uma amiga chamou minha atenção sobre os dados trocados virtualmente facilitarem a ação de criminosos. Bom, para que isso não aconteça, basta agirmos com bom-senso e seguir as recomendações policiais que estão constantemente na mídia.

Outra justificativa para tal preconceito é de que a pessoa que busca parceiros em tais redes fica restrita aos contatos virtuais. Realmente, isso pode ocorrer, mas com pessoas que já possuem certa “tendência” ao isolamento social. De resto, é apenas mais uma forma de conhecer pessoas: não é mais preciso necessariamente sair de casa numa segunda-feira chuvosa após um dia cansativo de trabalho só para encontrar alguém com quem conversar, podemos fazer isso confortavelmente em nossas casas, vestindo nossos pijamas.

Pois bem, qual o motivo de tanto preconceito então?

Houve um tempo em que as uniões eram arranjadas pelas famílias dos futuros cônjuges e eram mantidas (Por forças sociais, morais, religiosas, etc.) até que a morte os separasse e sabe Deus lá a que preço. No entanto, os casais se eximiam da responsabilidade da escolha que fizeram, já que essa lhes foi imposta.

Em um segundo momento histórico - depois de longos anos de mudanças gradativas - as pessoas passaram a decidir por si mesmas com quem iriam casar e, tempos depois, tiveram o direito de se separarem quando lhes conviessem. Instala-se a necessidade da conquista. Ora, só podemos tentar conquistar o que nos falta – e como admitirmos carências afetivas nós,  herdeiros de um ideal de amor romântico, em um mundo que não é mais o mesmo?

Jurandir Freire Costa diz:
            “Queremos ser ‘romanticamente dramáticos’, em um mundo avesso ao drama; queremos ser moralmente aprovados por correr os riscos da paixão, em um mundo no qual a dor se tornou um mero índice de impotência ou neurose; queremos o tremor da vertigem afetiva, mas com a salvaguarda dos psicofármacos contra as privações dos tempos de escassez; por fim, queremos amar com sentimentos do passado e gozar com os corpos do presente”.

Cada vez que escuto alguém condenar uma rede social, dizendo que isso é coisa de “desesperado”, ou muita exposição, penso o contrário: que isso é coisa de quem tem coragem de admitir uma falta e assumir seu próprio desejo.

Um bom encontro para quem tem coragem de buscá-lo.

OBS: texto dedicado à J.R.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A relação deu certo?

Tu não temes o engano

enquanto eu cismo.

Tu, tano.

Eu, femismo.

(Atribuído ao L. F. Veríssimo)


Somos herdeiros de séculos de história que nos ensinaram ser o ideal supremo de felicidade conjugal o “até que a morte nos separe”. Um dos mecanismos criados para que pensássemos assim são as histórias infantis. Interessante que o conto de fadas termina com um “e foram felizes para sempre” exatamente quando os protagonistas finalmente ficaram juntos. Não nos contaram como o príncipe superou as crises de TPM da princesa ou como ela administrou o orçamento doméstico. E com isso aprendemos que não mais importa se o casal dorme em camas separadas, tem relações extraconjugais ou sequer se cumprimentam - o que importa para que a relação dê certo é que dividam o mesmo teto até o final de suas vidas. Todos queremos uma relação que dê certo, mas raramente paramos para pensar no que isto significa.

Constituímo-nos a partir de como reagimos às relações que estabelecemos com outras pessoas, embora seja verdade que algumas coisas só aprendemos através da criatividade para lidar com momentos de solidão. No entanto, características como altruísmo, tolerância, paciência entre inúmeras outras, aprendemos graças as nossas relações pessoais. Nesse sentido, podemos afirmar que uma relação deu certo quando aprendemos e nos transformamos com ela.

Uma amiga me disse que se sente muito culpada por não ter percebido os sinais que o ex-namorado dava de que ele a traía. Mas graças a esta relação minha amiga conseguiu desenvolver traços essenciais de sua feminilidade. Além disso, ela que sempre teve dificuldades com rompimentos, conseguiu romper uma relação que não havia mais como consertar. Minha amiga não se submeteu a uma relação que se tornou doentia e, graças a isto, conseguiu romper com outras relações que já não cabiam mais em sua vida. Apesar do sofrimento, do luto, sua relação deu certo.

Um rapaz me disse que se sente frustrado porque mais uma vez rompeu um namoro. Mas este rapaz rompeu outras relações sem saber por que o fazia e, desta vez, aprendeu a avaliar exatamente suas dificuldades, definiu que tipo de relação deseja estabelecer, quais concessões consegue ou não fazer, aprendeu a se posicionar e rompeu de forma digna. E no meio disso tudo, reavaliou seu comportamento também em suas relações familiares e profissionais. Apesar da dificuldade de lidar com as reações das pessoas que o cercam, sua relação deu certo.

Uma senhora me diz que permaneceu trinta anos casada, sendo que nos últimos oito anos mal cumprimentava o ex-marido dentro de casa. Com muita dificuldade, me contou sobre seu ciúme que sempre fora excessivo, a necessidade de que o ex-marido suprisse todas as suas necessidades, etc. e tal. Após a separação, esta senhora começou a se relacionar com outro homem, onde repete todo o comportamento que tinha com o ex-marido. Para ela, o casamento não deu certo.

Minha avó, que ficou casada até o seu falecimento, me disse no dia em que seu casamento completou sessenta anos que o segredo para tanto tempo de matrimônio foi paciência. Posso argumentar como mulher moderna (ou pós-moderna, se preferirem), que as expectativas de minha avó com relação ao casamento eram diferentes das que nutrem as mulheres atuais, ou que ela foi “criada” para suportar qualquer tipo de sofrimento para permanecer casada. Também posso evocar a Psicanálise e falar sobre masoquismo feminino. No entanto, quando perguntei à minha avó como ela suportava uma cegueira quase total devido a um glaucoma e dores na perna devido a uma fratura no fêmur, ela também me disse: paciência. Curiosa e invasiva, perguntei como aprender tamanha paciência e ela me disse: eu aprendi durante o meu casamento. O casamento da minha avó deu certo não porque ela permaneceu casada até seu falecimento, mas, porque também através daquele, ela adquiriu qualidades e se transformou.

Quando começamos uma relação não saberemos se será até que a morte nos separe. Sabemos sim, que de alguma forma, um dia ela terminará. Então, que consigamos nos transformar através dela, pois ao contrário do que dizem alguns críticos (leigos) da psicanálise, não somos definidos por traumas infantis, ao contrário, somos mutantes em nossa natureza.

OBS: conversando com uma amiga sobre este tema, ela chamou a minha atenção sobre o terceiro filme do Shrek onde, segundo ela, o cotidiano do casal – trazendo alegrias e dificuldades – é mostrado. Achei isso muito interessante e vou assistir, mas já adianto uma observação: o casal que se diferencia do mundo idealizado dos contos de fadas (Tão tão distante) é caracterizados por “ogros”.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Entre rodeios e agressões

"Se são violentos, é porque estão desesperados" (Marcuse)

Dois fatos recentes: o “rodeio” na UNESP, onde rapazes literalmente montaram nas moças:http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI183186-15230,00.html e as agressões regionais após o resultado da eleição para Presidente da República: http://kioshi.blogspot.com/2010/11/xenofobia-no-twitter-contra-nordestinos.html

Ambos os fatos possuem as seguintes características em comum:

1)Manifestação da agressividade.
Lembremos o que disse Freud em “O mal-estar na civilização”:
Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo.

Ainda no mesmo texto, Freud nos diz que em determinadas circunstâncias o homem pode agir “como uma besta selvagem, a quem a consideração para com sua própria espécie é algo estranho”.

Temos em nós, humanos, poderosa quota de agressividade da qual precisamos abrir mão para sair da natureza e entrar na cultura. A cultura, por sua vez, necessita de esforços hercúleos para manter a manifestação dessa agressividade sob controle através de restrições como, por exemplo, a da sexualidade (proibição do sexo sem preservativo e sem intenção de procriar como impedimento do gozo), o que inibiria a pulsão em sua finalidade.

2)A eleição de um inimigo comum.
Não importa se o inimigo eleito é uma mulher acima do peso, o morador de outra região, um homossexual, negro, judeu, imigrante, etc e tals. O que importa é: quando um grupo elege um inimigo comum, ele se une para combatê-lo. Tal inimigo é eleito com base no que Freud chamou de “narcisismo das pequenas diferenças”: um amor a si mesmo que torna intolerável a existência do que é diferente, por este ser reconhecido como ameaçador. Sim, tendemos a agredir o que consideramos como ameaça. No caso do tal “rodeio”, não é difícil perceber como esses rapazes devem ter medo dessas mulheres enormes que mostram o quanto eles são pequenos e talvez impotentes para satisfazê-las. Em “Esboço de psicanálise Freud diz: “Um excesso de agressividade sexual transformará um amante num criminoso sexual, enquanto uma nítida diminuição no fator agressivo torna-lo-á acanhado ou impotente”.

Quanto às agressões regionais, é evidente que o resultado das eleições apenas serviu como disparador para que uma rivalidade preexistente se revelasse. Digo rivalidade porque todos sabemos sobre as brigas entre vizinhos, não importa se é do outro bairro, da outra região, do outro País (Oi, argentinos!) – ninguém disputa sozinho. Sobre este tema, Freud, em "Psicologia de grupo e análise do ego", lembrou Schopenhauer e a história dos porcos-espinhos de gelo que precisaram aprender uma distância segura entre si para sobreviver.

3)Os sentimentos provocados.
Ambos os acontecimentos, como disse, provocaram sentimentos de repulsa, revolta, e demonstrações enfáticas de indignação. Lembrou-me os grupos que vão para as portas das delegacias na tentativa de linchar aqueles que eles consideram diferentes na vã tentativa de mostrar que não são como eles.

Pois bem, somos humanos. Nosso psiquismo obedece às mesmas regras. Temos um quantum importante de agressividade constituinte que nos é necessária. Graças ao recalque, já saímos da barbárie pagando o preço de nossos instintos, é fato. E não saímos por aí humilhando mulheres gordas, queimando índios, xingando nordestinos ou sulistas e/ou espancando empregadas domésticas em pontos de ônibus. Não. No máximo queremos xingar muito e desejamos as piores desgraças, os maiores flagelos com requintes de crueldade ou a morte lenta e dolorosa de quem faz isso, mas já aprendemos que não é conveniente fazer tudo o que queremos, certo?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Baile de máscaras

“... percebo que as pessoas estão cada vez mais mascaradas, superficiais, não sei, pode ser até impressão. Parece que cada vez mais têm medo ou não têm vontade de se expor, serem elas mesmas, mostrar suas verdadeiras intenções. Estão sempre jogando, se escondendo atrás de máscaras... “. (A.M.)

A.M., leitora, está profundamente decepcionada. Como as pessoas podem mentir tanto, esconder, dissimular, etc. e tal? Não seria bem mais simples se todos dissessem o que querem, como e de quem? As relações não seriam mais autênticas se todos falassem a verdade – sempre? Vamos por partes.

Desde crianças, com o nosso choro, por exemplo, aprendemos que nosso comportamento causa reações nas pessoas. Saímos então mundo afora, conscientemente OU NÃO, tentando obter dos outros o que queremos deles através da queixa ou do aplauso. Maniqueísta? Não. Humano. No entanto, se a intenção é ferir ou prejudicar alguém de alguma forma, não estamos mais falando sobre um comportamento saudável.

A.M. gostaria de viver em um mundo em que todos dissessem a verdade, mas não há como sabermos toda a verdade sobre nós. Freud disse: “Não somos senhores em nossa própria casa”, ou seja, temos um conteúdo inconsciente que vaza em nossos atos falhos, chistes, sintomas e sonhos. Ah... aposto que se A.M. estivesse aqui me diria: “Mas as pessoas podem falar sobre a parte que elas sabem sobre si mesmas, né? Sobre suas intenções conscientes, pelo menos”. E eu responderia: podem sim. Mas nem sempre conseguem – embora às vezes tentem.

Dizer a verdade da qual temos acesso implica em correr riscos. Alguns são previsíveis: mentir em um curriculum profissional (que agora pode até virar crime) significa correr o risco de ser desmascarado e perder o emprego. Dizer para alguém que acabamos de conhecer que teremos apenas aquele encontro, é correr o risco de nem aquele encontro termos, ou – o pior – mutantes como somos, de depois querermos um segundo encontro e não termos mais crédito. Resumindo: não mostramos quem somos e o que desejamos por acreditar que não conseguiremos o almejado ou simplesmente por desconhecimento de nós mesmos.

Algumas vezes até conseguimos dizer a verdade – a conhecida – nos dispondo a assumir todos os riscos. Bravo! Mas muitas vezes nos arrependemos disso caso sejamos frustrados em nossas ambições.

Parênteses: Num mundo de exposições virtuais (Twitter, Orkut, etc.), percebemos claramente a necessidade das pessoas mostrarem o que não são. Sim – somos marcados e construídos pelo olhar e pelo desejo dos outros – precisamos que reconheçam em nós até o que não somos, mas gostaríamos absurdamente de ser.

Vivemos em um baile de máscaras? Sim, temos várias. Temos até as que desconhecemos. Temos tantas que algumas se tornam tão recorrentes que acabam se confundindo com a pele. Por ser necessário, não sei até que ponto é triste. Mas se posso dizer algo à A.M., é que muitas vezes percebemos as máscaras alheias, mas, por nossos mais secretos e legítimos motivos, preferimos fingir que elas não estão lá.