Adoro a imprevisibilidade dos sentimentos. Acho incrível como somos invadidos e atravessados pelas emoções que não pedem licença. Nos apaixonamos, alegramos, enraivecemos, entristecemos, odiamos e por aí vai.. Ah... vida sem graça se assim não fosse!
Já vi de tudo:
- amigos há anos, se descobrindo apaixonados;
- casamento desfeito após dois meses, sendo que o namoro durou dez anos;
- homens que sonhavam com sua continuidade através de filhos biológicos e casaram com mulheres inférteis, recorrendo à adoção;
- mulheres que nem podiam ouvir a palavra “casamento”, lavando meias e arrumando casa alegres da vida;
- homens que levantavam a bandeira do celibato e das relações fugazes, chorando igual criança por terem se apaixonado e não serem correspondidos;
e por aí vai...
Infelizmente esses casos ainda são minoria. Parece-me que a regra é fugir. Explico: muitas pessoas me perguntam por que é tão difícil encontrar alguém pra viver uma relação saudável. Bom, como diz o Contardo Calligaris, não podemos esquecer que precisamos de sorte – também. Além de sorte, precisamos desejar e assumir nosso desejo.
Jorge Forbes, em seu livro “Você quer o que deseja?”, nos diz que “o desejo humano é antagônico às soluções do ‘todo mundo tem de’, às soluções totalitárias.” O desejo vai na contramão do pré-estabelecido, do pré-fixado, do pré-conceito. Mas como é difícil sustentarmos nossos desejos... Muitas vezes preferimos nos acovardar em nossas racionalizações, usadas como escudos para não nos deixarmos arrebatar e assumir nossos desejos. Por quê? Ora... porque é mais confortável, dá menos trabalho e, sobretudo, porque é menos arriscado.
Rubem Alves diz que somos donos dos nossos atos, mas não somos donos dos nossos sentimentos. Concordo. Não podemos prometer sentimentos a ninguém, mas podemos fazer de tudo para evitar que eles aconteçam. Nesse sentido, a internet pode ser aliada dos temerosos, pois fica muito mais fácil dispensar alguém que não conhecemos pessoalmente, evitando um possível arrebatamento pelo toque, pelo cheiro e pelo olhar.
Um exemplo:
Ele: Acho melhor sermos só amigos, você não que casar nem ter filhos. Eu quero casar, ter filhos e agora não quero compromisso.
Ela: Concordo. Acho que você não tem assiduidade com seus compromissos e isso me incomoda.
Detalhe: os dois nunca saíram juntos, nem que seja pra um cineminha ou um café, tudo aconteceu pela internet! E acaba assim algo que nem sequer começou. Bom, não sei o que poderia ter acontecido se eles tivessem se encontrado. Ela poderia, com o tempo (ou imediatamente), se apaixonar por ele e aprender a relevar sua possível dificuldade com horários. Ou não. Mas ela também poderia decidir que com um homem desses ela até toparia casar. Ou não.
Quanto ao moço, ele poderia ter se encantado com o jeito dela e até se apaixonar. Ou não. Ele poderia também descobrir que morar em casas separadas pode ser mais interessante. Ou não. Ele também poderia continuar querendo uma relação estável só no futuro e encontrar alguém lá na frente que satisfaça as suas expectativas. Ou não.
Agora cada um está em seu canto, esperando que apareça alguém que se enquadre perfeitamente em suas necessidades pré-estabelecidas, no momento que eles considerarem mais adequado, como se o futuro pudesse ser previsto e determinado. Mas isso também não importa muito, pois relacionamento é algo secundário em suas tão atribuladas vidas profissionais...
Sendo assim, deixo a recomendação: a melhor maneira de ficar sozinho é não sustentar seu próprio desejo, é negá-lo exatamente pelo que ele tem de mais ameaçador e fascinante; é se acovardar diante da possibilidade de mudança de paradigmas - fugir da imprevisibilidade dos sentimentos.
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